cânone pessoal

Leituras que me alimentam a alma.

domingo, 17 de Janeiro de 2010

UMA DATA EM CADA MÃO - Livro de Horas I



11 de Maio de 1975
No fim de ter escrito (apetecia-me dizer «no fim de escrever»), parece-me encontrar o meu pai detestado e bem amado. Que ele está aqui, nesta sala de jantar, e me ama, e que juntos deparamos com um caminho que dantes, durante a sua vida - talvez porque tínhamos idades diferentes - nunca havíamos encontrado. Falamos juntos, e um com o outro, e tão bem. Percorremos, sem sair desta sala, toda a casa, e ele me mostra os cantos queridos em que eu me refugiava por ter medo da sua presença. É a nossa sala de jantar que revivo, não como cena, mas como realidade. O passado está no futuro - no lugar itinerante do meu desejo. É um desejo de profundo amor, uma espécie de trova ou de romance. Dirijo-me, sem peias, ao primeiro homem que amei, amor infeliz:


Esta terra não é minha,
se eu quiser minha será:
se eu nela tomar amores
minha terra ficará.


Meu pai está aqui e partilhamos a mesma felicidade.

Maria Gabriela Llansol, Uma Data em Cada Mão - Livro de Horas I,  Ed. Assírio & Alvim, 2009

terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

queda livre


João Negreiros

Apesar da minha conhecida preferência por cabelos brancos e rugas, também alguns amigos meus conseguem rasgar-me a alma.
Obrigada, João.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

A Ronda da Noite


O Porto não tem tradições fidalgas, toda a gente sabia. Negociantes, empresários, capitalistas, com as artes no Porto, a exemplo da Revolução Francesa, chamam artistas aos trabalhadores de certas profissões, como pintores, canalizadores, electricistas. Pessoas como Martinho Nabasco mereciam algum respeito porque eram ricos e só por isso. A seguir vinham os médicos e os professores e por fim os padres e os jornalistas. Era frequente os rapazes de boas famílias não terem grande instrução mas apenas mestres de caligrafia e contas. Maria Rosa seguiu essa cartilha quando já não era usada.
- Como as coisas mudaram! - disse Maria Rosa. Já deixara de fumar há muito tempo, mas tinha aquele gesto de quem procura um cinzeiro ou uma caixa de fósforos, deitando em volta um ar pesquisador. - Não digo só pela periferia e as pracetas novas, e as linhas de trânsito que vão dar a qualquer parte (Deus me livre de querer saber aonde vão dar, nunca mais lá chegava), mas pelas pessoas. Não conheço ninguém,. Ou estão mortas, ou em casa com Alzheimer. Eu recebia para o chá às quintas-feiras e às vezes aparecia um desconhecido e entrava. Podia roubar as gabardinas no bengaleiro e ninguém impedia. Agora fechamo-nos a sete chaves e para recebermos alguém tem que trazer um crachá da polícia. Tenho três cães soltos à noite e câmaras por toda a parte. Ninguém entra que não seja filmado.

A Ronda da Noite, Agustina Bessa-Luís, Guimarães Ed. 2006


quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

UM CORPO (SUB) EXPOSTO E...

(na ausência da capa original, uma foto da autora, roubada do seu blog)


hoje este país esta cidade este meu corpo múltiplo e
prolongado dói-me demais. na distância dos astros.
na polpa dos lábios. nos desânimos da voz que é árida
consistente como o aço. vaga como o fumo. velha como a terra.

nesta imensa claridade onde a espuma e os barcos
são velas de saudade doutros braços doutros corpos
sinto-me universalmente só
tudo é longe e doente
pouco e diabólico.

foram-se as palavras sobreveio o medo vieram as águias.
morreram os trevos.
dentro da fronteira dos gestos precisos deflagrou o fogo.
hoje este país é todo o meu corpo à deriva sem cidades nem rios
nem cofres nem centeio
este corpo oceânico onde as romãs foram os únicos sinais da alegria.

sinto-me hoje universalmente só e falta-me um punhal
para rasgar todos os úteros da mesma memória.

se ao menos um lobo rebelde me trincasse o coração...

Um Corpo (sub) Exposto, Isabel Mendes Ferreira, IN - CM
havia um quarto escuro
íntimo do desassossego animal inseguro rente ao espelho
o que não descubro é um poço de luz
o que me recusas é um triângulo de cal
e calo-me para te beber o silêncio
a soberba oscilação das pálpebras
o golpe da língua
a curva das unhas
e algures a tua cabeça repousa numa almofada de argila
e aqui neste quarto tão escuro
descubro o mel o selo o desvio a estrutura
tudo o que é breve e transparente como por exemplo
o peso das tuas mãos nas minhas mãos.
como por exemplo a pele do teu coração.
A Pele, Isabel Mendes Ferreira, Ed. Presença

domingo, 25 de Outubro de 2009

As Cidades Invisíveis

As cidades e os olhos. 4.
Chegados a Fílias, comprazemo-nos a observar quantas pontes diferentes uma das outras atravessam os canais: pontes em arco, cobertas, sobre pilares, de barcas, suspensas, com os parapeitos perfurados; quantas varieades de janelas se vêem sobre as ruas: geminadas, mouriscas, lanceoladas, em ogiva, encimadas por lunetas ou florões; quantas espécies de pavimentos cobrem o solo: de mosaico, de lajes, de saibro, de azulejos brancos e azuis. Em cada um dos seus pontos a cidade surpreende a vista: um cesto de alcaparras a sair das muralhas da fortaleza, as estátuas de três rainhas sobre um pedestal, uma cúpula em cebola com três cebolinhas enfiadas na agulha do pináculo. «Bem-aventurado quem tem todos os dias Filias sob os seus olhos e nunca deixa de ver as coisas que contém», exclamamos, com a tristeza de ter de abandonar a cidade depois de havê-la só aflorado com o olhar.
Mas acontece-nos ficarmos em Fílias e passarmos lá o resto dos nossos dias. Em breve a cidade empalidece aos nossos olhos, cancelam-se os florões, as estátuas sobre os pedestais, as cúpulas. Tal como todos os habitantes de Fílias seguimos linhas em ziguezague de uma rua para outra, distinguimos zonas de sol e zonas de sombra, aqui uma porta, ali uma escada, um banco onde podemos pousar o cesto, uma cunha onde o pé tropeça se não dermos por ela. Todo o resto da cidade é invisível. Fílias é um espaço em que se traçam percursos entre pontos supensos no vácuo, o caminho mais curto para chegar à loja daquele mecador evitando o portal daquele credor. Os nossos passos percorrem o que não se encontra fora dos olhos mas sim dentro, sepultado e apagado: se entre dois pórticos um continuar a parecer-nos mais alegre é porque aquele por onde passava há trinta anos uma rapariga de largas mangas bordadas, ou é só porque recebe a luz a uma certa hora como aqule pórtico, que já não nos lembtramos de onde ficava.
Milhões de olhos erguem-se para as janelas pontes alcaparras e é comop se percorressem uma página em branco. Muitas são as cidades como Fílias que se subtraem aos olhares se não as papanharmos de surpresa.
As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Editorial Teorema

domingo, 18 de Outubro de 2009

Apoplexia da ideia

aprende-se o segredo do rio como se a água abandonasse a pedra.
o sulco da palavra apura-se no sentido maior do silêncio.
um após outro o prazer eleva-se na pausa do som. amanhã mesmo
falaremos da harmonia no tom se não esquecermos o rio.
desconstrói - dizias. põe-te de pernas para o ar e desconstrói
a palavra - dizias.
e a certeza a concentrar ritmos delirantes.
suspende o ar - dizias. é lá que começa o canto dos olhos no esboço
do que me tentas. inventas - dizias.
falta o vinho para crescer a sede. falta o tempo para beber o medo.

acorda-me cedo.

pensar numa cidade é construir a cidade. ainda que cinzenta

e assustada, é a cidade. ontem construí a cidade - dizia. mas é uma
cidade para o dia seguinte. logo não é a cidade de ontem, nem de hoje.
mas do dia seguinte.
fiquei confusa e desisti de construir a cidade. criei a independência
da cidade. que por não ser minha já o foi.
agora vou ali ao bar dos gestos beber uma cidade.
não sei em que cerveja.

Apoplexia da ideia, Maria Quintans, Papiro Editora

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

o declínio da mentiraa


O que vale para o drama e a novela também é válido para as chamadas artes decorativas. Toda a história dessas artes na Europa é o registo da luta entre o Orientalismo, com a sua franca repulsa pela imitação, o seu gosto pela convenção artística, a sua recusa à representação de qualquer objecto da Natureza, e o nosso próprio espírito imitativo. Onde a técnica oriental se tornou proeminente, como em Bizâncio, na Sicília ou em Espanha, por contacto directo, ou no resto da Europa por efeito das Cruzadas, tivemos belíssimas e imaginativas obras em que as coisas da vida eram transmutadas em convenções artísticas, ou de que essas coisas estavam ausentes, mas inventadas para prazer e encanto da Vida. Onde tornámos à Vida e à Natureza, a nossa obra tornou-se sempre inferior, vulgar e desinteressante. A moderna tapeçaria, com efeitos etéreos, complicadas perspectivas alargadas até ao céu, é fiel e laborioso realismo sem beleza alguma. A cristalaria pintada alemã é absolutamente detestável. Em Inglaterra começamos a ter tapetes possíveis, mas apenas por havermos regressado ao método e ao espírito do Oriente. Há vinte anos, com o seu solene e deprimente verismo, a sua inerte cópia da Natureza, as suas sórdidas reproduções de objectos visíveis, esses tapetes davam vontade de rir até aos Filisteus. Um culto maometano observou uma vez: «Vocês, cristãos, estão tão ocupados na interpretação equivocada do quarto mandamento que nunca pensaram em fazer a aplicação artística do segundo». Tinham absoluta razão, e a conclusão correcta a tirar é esta: A escola adequada para aprender arte é a própria Arte; não a Vida.
O Declínio da Mentira, Oscar Wilde, Vega Editora

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